Scortum VII – Exoglossa

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“Pensei imediatamente se eu não poderia declarar que tudo aquilo seria uma ilusão e não uma ordem de Deus; mas ficou claro para mim que eu, então, teria de declarar que toda a religião em mim seria uma ilusão.”  – Wittgenstein

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Naquele dias fomos para um lugar diferente. Raphael queria que víssemos algo, lá, num precipício chamado Buraco das Araras. Além dele, estávamos em dezessete. O sibilar dos ventos era tudo. Assoprava sobre os nossos sentidos. Assim como penetrava as árvores por entre as suas folhas, estremeciam da relva sob nossos pés até os últimos fios de nossos cabelos. A carne e o sangue do meu corpo foi contaminada, fatal e definitivamente, naquele dia, por esse sibilar. Já vislumbrando o buraco, equipamo-nos e mergulhamos de rappel por muitos e muitos metros, quando já podia espantar-me com samambaias gigantes. Ali, Raphael, como uma espécie de hierofante, proclama: “E em sabedoria vos digo: a primeira gota d’água que precipita é a última que ascende. Os vivos transbordam pelo líquido que lhes bastou a vida. Por isso, em meio à Pantalassa, saciamos a sede dos vivos. Por mim, sois aqueles por quem cai e ascende o primevo fatídico hydros. De Tales a Tirésias, a água é arqueteleobioma. Morremos quando secamos de nós mesmos”.

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Scortum VI – A Singular entre as Formigas

“A experiência nos mostra que a aproximação impressentida da morte lança um adumbratio (sombra antecipadora) sobre a vida e sobre os sonhos da vítima.”

Carl G. Jung

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Imaginaria eu,  Mariamne/Nihile, que necessitaria aguardar por tantos minutos Raphael/Ophiuchus, em meio a esta estranha e abandonada praça dos cristais? Jamais. Mas deitada vislumbrei essas nuvens, umas tais cumulos humilis pelo que pude ver num aplicativo, que me irradiaram à imaginação formas de tudo quanto animais. Às 16 horas deveríamos nos encontrar nesse lugar esquisito. Dito assim porque a praça é uma coisa tão estranha que merece explicação. De frente ao quartel general do Brasil, ela tem a forma de um triângulo, com um misto de caminhos de paralelepípedos, e de jardins que me causaram suspiros, e ainda de um espelho d’água que circunda os tais cristais, feitos de concreto. Através dessa lagoinha, decerto, foram alinhados blocos que permitem a aproximação dos pretensos cristais, e foi lá que de pulinho em pulinho no sétimo bloco cruzei meus pezinhos e sentei, aguardando por Raphael/Ophiuchus, aquele puto.

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E dele nada até agora. Foi para isso que me salvou, dar sobrevida à minha perda de tempo? E eu achando que um homem tão próximo de deus seria pontual. O relógio já marcava 16h55 e nada… Foi então que vi algo incomum. Uma formiga caminhando na calçada, daquelas cabeçudas, carregava um pedacinho de papel fechado. Resolvi esmagá-la, e peguei o papelzinho, abri e li o que continha: ora, era “1 N 126” e só! Mas que porra! Que tipo de idiota se dá o trabalho de escrever “1 N 126” num pedaço de papel e o deixa à mercê de… nada, suponho. Caralho, e mais do que aquela formiga que esmaguei, vi uma colônia toda aqui. E não só isso, muitas carregam também pedacinhos de papel. Peguei uma outra, e dessa vez não matei aquela coisinha escrota, apenas tomei o que carregava, e pude ler: “21 E 106”. Bom, aquilo me grilou, e deixei pra lá a espera por  Raphael/Ophiuchus e resolvi catar mais formiguinhas. Cavaria a terra até a noite entre cristais atrás de meras formigas, sempre amigas.

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Puta que me pariu, o meu tempo escorreu como uma mijada nessa procura. E com amargura persegui tantas formigas quanto pude, e em meio aos blocos ainda vi, amiúde, tantos insetos quanto as aqui cobiçadas folhinhas rasgadas. Naquela hora, sabe-se lá qual, percebi que haviam formigas montadas naqueles cristais fincados em meio d’água. Tinha já em mãos os seguintes fragmentos, que agora recapitulo em memento: li “1 N 126”, “2 I 125”, “3 H 124”, “5 L 122”, “8 S 119”, “13 S 114”, “21 E 106”, “34 U 93”, “55 A 72” e “38 A 89”. Dez eram os papeizinhos que já retinha, quando pela retina ainda não compreendia sequer um vestígio de palavra. E foi quando em estígio escuro me senti, tal como larva. Não para ficar mais louca do que talvez já esteja, pelo que – veja! – descubro que na superfície dos cristais perfaziam algumas formigas vagais. Mas que pau no cu. E “tchu!”, descalço meus pés dos lindos sapatos de couro pretos à moda escolar, e adentro nessa gélida água, que dos calafrios não posso reclamar, já que não vou me afogar em lago que fira meus brios. Como divago em tolos enredos, tal como nesse revés, esquálidos encontram-se meus pálidos dedos dos pés. Tudo porque o seu puto não soube ser pontual. E ora, já estraguei meu visual, até que então quase borrei a calcinha, seja lá qual poder oculto detinha, quando um vulto saiu em meio às garças, e pude ver que tudo não era mais farsa: ali estava o profeta dos fluxos, Raphael/Ophiuchus.

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The Little Mourner, engraved by the Dalziel Brothers published 1862 by Frederick Sandys 1829-1904

Scortum V – Epílio do Sacrifício

 “… porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só.”

                                                                                -Epicurus

pia-desideria-herman-hugo Sentado diante de muitos, Ophiuchus agitou em sua mão um par de dados e lançou-os sobre o tapete, tendo o sete por resultado. De novo o Pligesteta começou a falar em epílios, proferindo-lhes: – o singular vazio está à semelhança da democracia que celebra o contar dos dias com o sangue de seus celerados sentenciados. Conto-lhes daquele que preencheu o vazio com a vida, e somente imerso no vazio soube preservá-la. Pois pelo Epílio do Sacrifício ia por entre as celas daquela imensa fortaleza que servia de prisão a verduga de nome Calixto comunicando o nome prescrito do dia em sua agenda de execuções. Naquele tempo as paredes rochosas gotejavam ante à enxurrada que do lado de fora engolia a terra. Quando no Dies Veneris, Calixto percorreu o corredor dos réus sete vezes, e por tantas vezes quanto sete ausentou-lhe a imagem daquele que seria a oferenda à comemoração do próximo Dies Saturni. Quedava desaparecido Collatinus, o condenado da sétima cela. Eis que Calixto, diante d’Aquele das pupilas em flamas d’água, o prisioneiro da cela seis, propõe: “Sextus, sua morte é questão de um piscar de olhos, mas ainda pode obter disso vantagem. O detento da cela sete escapou. Falta-me um corpo para amanhã e, caso cumpra o papel, retribuirei à sua família com o ouro de gerações, o que dignificaria toda a sua inevitável penitência. Preciso que morra por mim e não por nada, que, como favor, tudo se resolve”. O prisioneiro da cela seis fitou-a por alguns minutos e, então, disse: “Mulher de muita fé, se esperas que de meu sacrifício consigas suprir a vida, que seja feita a tua vontade”. E redigiram os termos de consenso autenticado por sinete sobre a flor de dente-de-leão misturada à cera vermelha. Tendo por dezessete os passos contados até a cela de número sete, ali Sextus permaneceu até a décima sétima hora do dia, quando foi conduzido por Calixto até o cadafalso. Por tantas as vezes que foi vilipendiado pela plebe em seu percurso, não pôde contar. E já sentia em sua jugular a sombra da lâmina punhada pela delicada e firme mão de Calixto, então desde longe bradou um homem de finas vestes: “Calixto, Calixto! Não estendas o teu fio através do moço, porquanto agora abolimos o sacrifício tão somente neste dia, em memória de nosso recém falecido Pontifex Maximus. Agora sabemos que nos legastes a vida em morte. Deixa-o ir”. E Sextus passa a ser um homem livre. Ciente de seu juramento, Calixto mantém a palavra e permanece próxima de Sextus, agora zeloso com os adoecidos pais e honrado à posição de Curator Aquarum. E ela passa a amar Sextus. E ele passa a amar Calixto. Transcorridos dezessete meses, chega o dia em que Calixto é acusada de negligência, por estar vazia a cela seis, para o crepúsculo que se impõe sangue, pelo que os oligarcas decidem que da própria Calixto seja feita a imolação. Tão logo soube, Sextus compareceu ao local alto em que erigia Calixto e ofereceu-se em seu lugar ante os olhos dos oligarcas. Atônitos com o ato piedoso de quem por uma vez pairou a sombra da morte, os plenipotentes decidem que cabe a Sextus transpassar a garganta de Calixto, aquela que por tão pouco não foi sua algoz, e em celebração da justiça. Forçado pelas palavras de incentivo daquela que tanto amava, que assim disse-lhe: “Homem de pouca fé, se esperas que de minha salvação consigas desarmar a morte, que seja feita a tua contrariedade”. E por estas palavras pôs-se Sextus a enxergar entre os ásperos e trêmulos dedos e a escorrer entre as tábuas o sangue da mulher que tão somente além de tudo amava. Então Sextus em mais nada sofreu, nem nada creu, tampouco nada esperou, e por nada suportou senão a visão daquele dente-de-leão que conservou amalgamado em vermelho ao papel em que escorria a tenra caligrafia da fiel de seu desejo. Pois que Sextus proferiu: “Se envolto ao vazio encontrei a vida, preenchido de vida reencontrei o vazio”. E após tais palavras, Ophiuchus tornou: “eis que o Sexto Sábio se fez conhecedor dos mistérios dos fluxos e da liberdade”. E então, Ophiuchus calou-se.

Scortum IV – Homo Monstrosus

“O homem é o mundo em miniatura”

                                             – O Risonho
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O que um Monstrum escreveria se soubesse que não seria lido? Ciente de que seu comportamento pode ser julgado como anômalo, subversivo, perigoso, sob o risco de sofrer retaliações, não seria melhor nada redigir? “Não, não, pois a escrita é o monumento do desdém que um Monstrum tem para com seus convivas, o desafio supremo que impõe ao situá-los à niilidade, eternizando-se”. Porque a inscrição prescinde inclusive do leitor e, da efemeridade da interpretação, faz qualquer significado. O que se lê dos caracteres redigidos por um Homo Monstrosus são tão somente… caracteres. Tudo o mais é ininteligível. E o que impeliria criatura tão vil e desprezível a despender tamanho esforço intelectual para tão apenas erigir abominações desoladoras à visão? Daquelas inscrições fenderiam aos intérpretes mares de sangue, exortados a derramar para cada clinâmen de juízo estético que advém das suas sempre tão sagradas escrituras. Dos aforismos de maior densidade transmutam-se as significações mais perigosas. Porque um sacrifício a mais nunca seria demais, caro genocida. Como pensar que Teúnculus nos legaria palavras escritas, quando de seu sopro nos deixou inscritos no cosmo? E ainda sobre e sob nossas peles nada além do ilegível.

Scortum III – Boas Horas

“Olhae a serpe occulta na herva verde”.

                                         – Luís de Camões

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O que sinto desse inerte amor é o que se diz de um sentimento inefável. Sou devorada pelo anseio de especular o meu valor. No espelho consigo enxergar tudo, exceto a minha própria imagem. Estes olhos, e nariz, e boca, e cabelos,  e rosto, somados, não compõem esta que é detentora do nome Hyléna. Não posso me imaginar com essa imagem. Sou o resto da soma. Estaria melhor representada no laudo de um exame de raio-x.

Scortum II – Lacryma Mundi

                 “‘Ara, i ‘anga s-asem o-îkóbo”.                 ϕ                 “Mundo, sua alma está gritando”.    

                                                                 vegvisirhand of erisaegishjalmur                

Por aquelas escadarias subiu primeiramente aquele que atraía os olhares curiosos dos demais presentes. Ele contou 17 degraus até o púlpito. Na pequena varanda, projetada aos olhos de todos, tendo diante de si um pequeno parapeito em que jazia um livro de capa preta e folhas envelhecidas. Diante dos seus, aquele homem, de pé, proferiu: “Quando lá do alto o céu não era visto e embaixo a terra não era invocada à existência, eu entornei o meu nome ao relento e sobre ele os céus e as terras se incrustaram. Semeio nesta terra alguns dentes de Cadmo para que brotem as palavras para cada um dos senhores. De minha presença se prenuncia os vossos nomes. Com o que lhes for colhido, saberão vaticinar sobre si mesmos, que lhes orbita.”. Por aquelas escadarias viram os ali presentes este homem, detendo um sereno semblante, descê-la devagar, caminhando até o pequeno jardim à saída lateral da sala, onde então agachou-se. Delicadamente foram enterrados aqueles dentes. O homem retorna, então, à sala, com os sapatos imundos de barro, e as tão sujas mãos portando um dente, e brada: “Ei-me Ophiuchus, O Pligésteta, O Metadérmico, O Aftosceta, O Corpo cujo âmago rodeia fora de meu alcance. A cadência do que foi celeste. O fragmento de um mundo que grita sem mim. E de minha ausência se pronuncia o meu nome: Ophiuchus”.

 

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Scortum I – Mortido

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A dor da inspiração é superada pela da expiração somente até que o ar novamente preencha os pulmões. O cérebro insone sabe potencializar cada contração do diafragma. Eis a apreciação do dissabor: obscurece a língua para tudo senão ao paladar que se limita a se absorver. Tornar vivo um morto é um truque abjeto se comparado a tornar vívido um vivo arrancado da própria vida que lhe continua. A carne de dois corpos antes uno é separada tão somente para que se preserve o que daí se persevera. Da sôfrega matéria pulsante que entitulamos “ser” se observa o apodrecimento em aceleração diretamente proporcional à distância em que se encontra da vida que lhe faz vívida.

Squāma V – Structura

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Pontilhus: O abismo paira sobre todas as cabeças. Somos télamos e cariátides da frágil estrutura da Terra. Abaixo está toda a gravitās que herdamos de Atlas. Expelimos a biosíntese da nihilitās, replicando a gênese por teunculus, o infinitesimal. Pois o que seria a expansão senão um fenômeno entrópico? 

OphiuchusSe estamos, por quê nos tem como frágil? Tudo o que sinto do crescente firmamento é o frescor da brisa.

Pontilhus: ...

Squāma IV – Abyssimus

Sobre o que jazem as verdades? O que se lê de runas escavadas sob éons de Escrituras Sagradas é somente, e tão somente, o que foi tegiversado:

“O tempo de vida humano, esparso entre os abortados e os centenários, mais que desperdiçado, enseja-nos para direcioná-lo à inocuidade”.

Às margens de um horizonte depresso, é impelida a criatura de Ophion ao Abyssimus. Acaso os céus ocupassem o lugar do solo, quão bem recebidas seriam as nuvens no pós-vida? Quando não se vê nada além de nada, que vantagem leva aquele com o dom da visão? Envolvia-o o obscuro infrafirmamento sem fundo de onde o que poderiam ser olhos opacos de empatia centelhavam. Até que espessura devem os sábios acumular as palavra sobre as esquecidas runas para que percebam que sua pilha de legado, tal como eles mesmos, está fundamentada em pilares cada vez maiores, e em plena e profunda queda? De um fim a um ciclo, comutamos as palavras para as que proporcionem um maior conforto. In hoc signo vinces.

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Squāma III – O Singular Vazio

Uma vida vazia é a única que abre espaço para as demais, pois é preciso cavar um buraco em si mesmo para alcançar novas vidas. Quanto menos desprovidos de substância, maior profundidade conferimos ao Singular Vazio de nossa desaparecença. Torna-se imperativo adotar uma aftoscese uma vez exclusas todas as conjecturas ascéticas ou metafísicas. Durante nossa incoesão, tal como as estrelas, devemos dirimir com languidez ou abismar o Mundo ao Incognoscível. Porque encontramos a certeza somente naquele que semeia a incerteza em nossos corações.

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